sábado, 17 de novembro de 2007

Crítica: COMPROMETENDO A ATUAÇÃO


Se o espectador não assistir por completo, ou simplesmente julgar pelo título da obra, certamente não vai emitir um juízo adequado para o novo filme de Bruno Bini, Comprometendo a atuação. O filme mostra um talentoso jogador de futebol (personagem de Jonathan Haagensen), morador da periferia cuiabense, que divide seu tempo entre o treino da equipe, o trabalho no estoque de um supermercado e a assistência a sua linda namorada (personagem de Michelle Valle). Wallace tem a chance de ser convocado por uma grande equipe carioca. Para isso, ele precisa estar preparado, se concentrar no jogo e esquecer sua vida sexual quase “compulsiva”.

Ainda que a temática utilizada seja adocicada, romântica e engraçada (e isso traz um sabor a obra), a trama mostra, na simplicidade das personagens, um retrato quase pitoresco do meio esportivo brasileiro; seja pela vontade do personagem de ser um jogador bem-sucedido, seja pelo prazer de estar sempre indo para cama com a sua namorada. Outra coisa interessante de ser notada é a duplicidade no significado da palavra “atuação”. O técnico chama Wallace na conversa, cobrando rendimento do jogador em campo. Ao mesmo tempo, há uma cobrança da namorada, dizendo que ele precisa deixar de ser mais ou menos na cama. Estes momentos mostram ao espectador que as duas significações inquietam o personagem, na mesma proporção, durante todo o filme.

O sabor de fato do filme não está propriamente na trama, e sim na fotografia e na trilha sonora. A escolha de imagens, os recortes e aproximações, aliadas a uma trilha sonora belíssima, traçam na obra uma linha tênue entre a personalidade, a felicidade, e a devoção do personagem às diversas ações executadas, clima típico da população dos subúrbios brasileiros. A seleção musical, com toda a sua diversidade, dá à obra um caráter brasileiro, partindo da cena particular de Cuiabá-MT.

Moisés Nascimento

(texto produzido na oficina “O curta-metragem brasileiro: história e crítica”)

Crítica: ANTES QUE SEJA TARDE


Antes que Seja Tarde não é apenas uma ficção adolescente como essas que vemos em qualquer lugar ou até mesmo na televisão. Aqui, vivemos a experiência de Digo – representado pelo ator Fábio Lucindo que também empresta sua voz para vários personagens de desenhos animados, então não estranhe se perceber alguma semelhança com um “Vai, Pikachu!”. Digo é um rapaz sonhador que tenta lidar com seus sentimentos da melhor maneira possível através de sua fase de pré-emancipação e de estudante pré-vestibular.

A maneira que o filme é dirigido, envolvido na mesma profusão de pensamentos entrecortados por lembranças e sonhos da cabeça de Digo, num ritmo acelerado e quase caótico é a imagem exata do funcionamento da cabeça de um adolescente com suas paixões, dúvidas, angústias e questões filosóficas. Digo tem escolhas difíceis a fazer, mas não sabe como fazê-las – ou não quer fazê-las –, algo que ele aprenderá com a experiência que ele ainda não tem.

Assim, também somos apresentados aos seus amigos, personagens diferentes, mas que invariavelmente acabam tendo as mesmas dificuldades que Digo, como a insegurança.

Mais do que nos contar a sua história, Digo nos faz sentir o que ele sente, ter as dúvidas que ele tem, tudo isso graças à visão que o diretor nos dá através da narração em primeira pessoa, da bela montagem fotografia e da trilha sonora, que preenche de forma exata os espaços deixados como lacunas, momentos de reflexão enquanto anda de bicicleta.

Saulo Puppin Pratti

(texto produzido na oficina “O curta-metragem brasileiro: história e crítica”)

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Tatuagens para Memória


Itinerante: que ou aquele que viaja, que percorre itinerários;
viajante;

Viajante é a Sandra Carla, que trabalhou lá em casa alguns anos atrás.
Me liga hoje e dá notícia de que nos últimos tempos percorreu meio mundo. Fez de tudo um pouco, trabalhou com o que dava, conheceu muita gente, arrumou uns dois namorados, engravidou do 7o filho, e conheceu o cinema.

Viu seu primeiro filme em São Roque do Canaã, dentro do projeto Revelando os Brasis.
“Era o filme de um agricultor que toca concertina. Sabe o que é concertina?” *
“Sei. Mas Sandra, como é que você foi parar lá?”
“De carona”

E na 3a-feira, em Andorinhas, bairro em que mora atualmente, Sandra Carla viu mais filmes dentro do projeto Cine Galpão Itinerante.
Por isso se lembrou de mim, e me ligou. Tá pensando em trabalhar com cinema.

Sandra Carla também fez duas tatuagens. Uma flor e um número 7 “pra lembrar de parar de fazer filho.”.

Eu preciso me tatuar para lembrar de não parar de ouvir histórias e assistir filmes.

* “O Último Tocador” , de Valbert Vago

Ana Murta

Crítica: SALIVA


Repugnância e desejo. Esses são apenas dois dos sentimentos nos quais Saliva busca submergir o espectador. O curta-metragem de Esmir Filho cria repulsa com imagens asquerosas, mas, ao mesmo tempo, nos convida a entrar naquele universo tão líquido que chega a mostrar-se sensual.

O primeiro beijo de uma pré-adolescente. Estabelece-se já, a partir dessa pobre síntese da trama, uma idéia que se estenderá nos quinze minutos de filme: o escorrer da infância e a entrada na pré-adolescência - uma fase transitória, que se refletirá na indefinição, na liquidez das cenas. Podemos pensar no uso do papel celofane, por exemplo, seria um significante alegoricamente infantil, que, no entanto, sugeriu charme e sensualidade.

Muitos foram os elementos precisos no sentido de criar o clima perfeito para a narrativa: a chuva, o copo d’água com gelo, o espelho embaçado... As imagens fluidas, turvas, acompanhadas de um som meio ecoado, escorrido, pingado permitem ao espectador ficar sensorialmente muito próximo da história. E é nesse mar de medo, sonho e desejo, que o um quarto de hora do filme se esvai num fluxo intenso e envolvente, nos levando consigo a mergulhar novamente na infância.

Laiz Ariana

(texto produzido na oficina “O curta-metragem brasileiro: história e crítica”)

Crítica: CINE ZÉ SOZINHO


A reconstrução da memória de José Raimundo Cavalcante, o Zé Sozinho do título, é encenada no filme através de dois pontos de vista distintos: o do próprio Zé, que narra em primeira pessoa os encalços que o acompanharam durante toda sua vida de exibidor de filmes, ao mesmo tempo em que ratifica a paixão que sente por essa arte; e o de pessoas que ajudaram a consolidar essa paixão, seja através da presença física nos lugares por onde os filmes eram exibidos ou por meio de pequenos favores que possibilitaram o funcionamento completo de toda a engrenagem. Se essa proposta de abordagem dual teoricamente não dimensiona a personagem de maneira devida, já que o ideal para o espectador seria a compreensão bilateral de suas características pessoais, a colocação da palavra “Cine” antecedendo o nome do protagonista no título do filme por si só justifica o modo com que o diretor Adriano Lima se posiciona em relação ao tema. O conteúdo em questão não é o íntimo de José Raimundo Cavalcante e sua relação com o mundo, mas sim a trajetória de Zé Sozinho e sua dedicação para com o cinema.

Não é à toa que o grande ídolo de Zé Sozinho é outro José, o Mojica Marins, cineasta precursor do cinema de horror no Brasil no final dos anos 50. Além de compartilharem o mesmo prenome, outras duas características essenciais unem os propósitos dos dois realizadores: enquanto Mojica sempre teve seu cinema localizado à margem de toda convenção cinematográfica, travando ao longo de décadas uma verdadeira batalha para filmar e exibir seus filmes, Zé Sozinho percorreu, isento de qualquer auxílio de bonificação, as cidades pequenas do Ceará para levar o cinema a quem jamais teve contato com a magia projetada numa tela grande. Se a relação travada entre os dois Josés e o objeto de afeição que os aproxima é de grande valor para o entendimento da proposta da curta, a ligação se aprofunda quando os paralelos vão além: Zé Sozinho ficou um bom tempo sem condições de exibir seus filmes devido, principalmente, à carência de recursos, vindo a retomar suas atividades há pouco menos de dois anos, graças a um incentivo do governo do estado; enquanto Zé do Caixão conheceu um exílio de 20 anos das telas nacionais, retornando em 2007 em grande estilo numa nova produção cinematográfica, ainda inédita nos cinemas. Duas mentes e duas histórias unidas por uma só paixão.

Se o diretor se coloca ao lado de Zé Sozinho a todo instante, abraçando sua causa e defendendo-a também através da montagem das cenas, que intercalam os depoimentos do personagem central, dos envolvidos e dos saudosos de seu cinema com momentos dos próprios filmes que outrora eram exibidos, a riqueza e a força motivadora de Zé Sozinho são suficientes para manter teso o arco de toda a conversa. E a platéia, que respondeu positivamente às expectativas do diretor Adriano Lima, deleitou-se com quinze minutos de perseverança, bom-humor e o sentimento que está também no âmago do 14° Vitória Cine Vídeo: o amor incondicional pelo cinema.

Samuel Lobo

(texto produzido na oficina “O curta-metragem brasileiro: história e crítica”)

Crítica: ESPETO


Uma caricatura da velha história de inveja que termina em um assassinato, esta foi a melhor definição que encontrei para este filme. Nele usa-se o cenário de uma churrascaria rodízio e ainda ferramentas do teatro, como cores e expressões fortes, para contar uma paródia em que o personagem principal faz o que acha ser necessário para conseguir o que deseja, inclusive matar um colega de trabalho. Na primeira metade do curta, percebe-se claramente que o Lingüiça se sente inferiorizado, desprezado, ilustrado nas repetidas vezes em que recusam o seu espeto para pedir um pedaço de picanha.

O interessante da história é que todos nós sempre temos alguma coisa que consideramos muito importantes, e ainda assim existem pessoas que nos negam essa consideração, como aconteceu com o Lingüiça. Isso nos provoca muito inveja, e é fato que a inveja mata.

Infelizmente os diretores não souberem como fazer essa caricaturização. Algumas cenas ficaram sem sentido e exageradas, como o momento do devaneio do personagem principal no meio do casamento. Assim o filme tornou-se um tanto enjoado de assistir, e as atuações forçadas de alguns personagens também não ajudaram. Contudo alguns pedaços salvam o curta com boas piadas sutis, afinal qual o sentido de uma mulher “fofa” ir numa churrascaria se esta de dieta ou o que diacho faz um cego numa mesa onde só tem uma boneca? Existem, é claro, coisas mais engraçadas que isso no filme, momentos em que até consegui rir bastante, mas não irei estragar ainda mais o filme para aquele que não foi desencorajado pela minha opinião.

Janaina Scal

(texto produzido na oficina “O curta-metragem brasileiro: história e crítica”)

Crítica: ESCONDE-ESCONDE


Dizem que quem procura, acaba sempre encontrando. Mesmo que não seja exatamente o que estava procurando. Mesmo que seja algo totalmente inverso do esperado. Mesmo que seja a constatação de que, apesar de encontrar alguma coisa, a procura nunca acaba. O curta-metragem de Álvaro Furloni consegue, para além do aspecto imaginário/ficcional do cinema, confundir-nos ainda mais na tentativa, quase inútil, de separar realidade e imaginação.

Um homem idoso, Amaro, relaciona-se com as imagens de sua mulher e seu filho, ambos mortos fisicamente, mas renascidos por sua memória. Com a cumplicidade que apenas o cinema pode oferecer, essas imagens ganham vida, movimento e participação nesse seu mundo vazio e melancólico.

“Não estrague a brincadeira”, é o que diz sua mulher Regina ao brincar de esconde-esconde com o filho, Marcos. É também o que parece nos dizer esse curta-metragem, ao nos incluir nesse seu jogo/trama. Está em nossas mãos manter as coisas como estão. Na penumbra de sua velhice, Amaro, nos revela as perturbações de sua mente enfraquecida e transtornada, que mistura passado e presente, lembranças e esquecimentos. Um mundo que, apesar de ser criado por ele, agora também nos pertence.

Vemos aquilo que queremos ver. Pois, afinal, o que mais impregna nosso olhar além de lembranças, memórias seletivas e saudades? A velhice é uma ponte a qual todos aqueles que não morrem antes haverão de atravessar. Fato tão óbvio como a matemática que o porteiro do prédio ensina a seu colega de trabalho, o faxineiro. Dois mais dois será sempre igual a quatro. Sempre mesmo?

Furloni parece questionar a realidade com esse curta. Parece também colocar o próprio cinema em questão na medida em que revela aquilo que tenta, desesperadamente, esconder. A fala de Regina no parque “... é que às vezes eu me lembro...”, lança-nos em direção ao abismo da contradição real-imaginário.

Nesse sentido, o jogo do esconde-esconde fica ainda mais emocionante quando podemos acrescentar uma palavra ao seu nome, resolvendo assim o quebra-cabeça que nos propõe: esconde-esconde e revela. Assim como faz o cinema.

Meire Rose Cruz

(texto produzido na oficina “O curta-metragem brasileiro: história e crítica”)

Dercy


Ontem foi dia de homenagem.
Casa lotada, inquietação no ar... chega Dercy Gonçalves.

Vestindo paetês vermelhos, ela entra triunfal distribuindo beijos e posando para fotos.
O público do festival, que naturalmente já tem uma tendência a interagir com artistas e obras, vai ao delírio!

Dercy discursa com a tão famosa irreverência.
Muito palavrão, muita risada, muito trabalho em filmes, novelas, circos, teatros e cabarés.
Inacreditáveis 100 anos de vida, e de desbocada lucidez.

Ana Murta

Público


Um festival de cinema é composto de :

Planos e planos, sonhos e roteiros, luz, fotografia e vontades.
Idéias e enquadramentos, críticas, preços e opiniões.
Finalizações e reclamações, críticos, projetos e montagens.
Exibições e desilusões, cineastas, falar mal dos outros e cinema.

E assistindo a tudo tem o público.

Ana Murta

Público II – A Nova Geração


E falando em público, o que pode ser mais precioso do que uma criança descobrindo o cinema ?
O exato momento em que seus olhos pouco adaptados ao escuro, brilham diante da imagem em grande proporção.
Nasce uma nova geração de público para o cinema.

Todo ano acontece o Festivalzinho.
Podia acontecer o Festivalzinho o ano todo.
Porque em nosso cinema brazuca faltam dinheiro, técnicos, críticos, investimentos, formação, e acima de tudo falta PLATÉIA.

Ana Murta

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

PRIMEIROS TEXTOS PRODUZIDOS NA OFICINA DE CRÍTICA DE CURTA-METRAGEM DO 14º VITÓRIA CINE VÍDEO


A oficina “O curta-metragem brasileiro: história e crítica”, oferecida este ano pelo Vitória Cine Vídeo, vem sendo realizada desde a última segunda-feira, sempre à tarde, no campus da Universidade Federal do Espírito Santo. Os 15 alunos participantes discutem diariamente os filmes exibidos na mostra competitiva de curtas-metragens da noite anterior e saem das aulas com a tarefa de transformar este papo em texto crítico. A primeira leva dessa produção acaba de ficar pronta, e é ela que publicamos a seguir, com todos os autores devidamente identificados. Cada aluno teve total liberdade de escrita, e a própria dinâmica de uma oficina que agrega pessoas de formações diferentes se manifesta nos textos que apresentamos agora, todos eles bastante distintos entre si, e ao mesmo tempo completamente entregues ao exercício do pensamento crítico sobre o cinema – e, especificamente, sobre o cinema de curta-metragem brasileiro atual, sempre tão pouco analisado pela crítica. O mandamento fundamental das nossas aulas tem sido a aposta no binômio paixão-lucidez (tomado emprestado do grande crítico francês Jean Douchet). E é de amores e idéias que os textos abaixo – e os que ainda serão publicados até o fim do festival – se nutrem.

Que leitores e realizadores acompanhem a jornada destes novos críticos sempre por aqui, no blog do festival.

Rodrigo de Oliveira
(professor da oficina)

Crítica: PIXINGUINHA E A VELHA GUARDA DO SAMBA


Quando exibido na noite de abertura do 14° Vitória Cine Vídeo, o curta-metragem Pixinguinha e a Velha Guarda do Samba, de Thomaz Farkas e Ricardo Dias foi aplaudido com particular entusiasmo pela platéia que lotou o Teatro Glória. As imagens do sambista e sua trupe numa animada roda de samba tocando e dançando provocaram reações exaltadas por parte do público, já que além de exibirem toda a simpatia e a sintonia do grupo enquanto unidade, estas são também o único registro em movimento do conjunto em ação. Encontradas por acaso pelo fotógrafo e documentarista Thomaz Farkas em seus arquivos pessoais, as imagens funcionam como mote principal para o desenvolvimento narrativo do curta, que tem como função primordial evidenciar a importância desse achado e, a partir disso, notificar a relação passional de Farkas para com seu tesouro. Usando uma abordagem formal e de fácil assimilação, o cineasta inicia o curta caracterizando sua personagem central em seu ambiente cotidiano, para, no momento posterior, servir sua câmera a favor do relato que ele tem a nos fazer: como aconteceu e qual o significado do documento filmado num simples tripé no Parque do Ibirapuera em 1954. Embora haja um contraste no tratamento dado aos dois pólos que movem o filme – o testemunho de Farkas e a reprodução do registro visual -, marcado pela distância com que o cineasta retrata seu documentado e o contraponto emocional que este faz ao descrever o ato de captura do momento em questão, o curta se mostra bem-sucedido ao homenagear simultaneamente duas figuras de notabilidade da cultura nacional. E o privilégio de assistir aos gracejos de João da Baiana, Donga e vários outros músicos comandados pelo mestre Pixinguinha, é o que, sem dúvida, justifica a recepção calorosa que o curta encontra por todas as salas onde é exibido.

Samuel Lobo

(texto produzido na oficina “O curta-metragem brasileiro: história e crítica”)

Crítica: O LOBINHO NUNCA MENTE (texto 1)


O que faríamos se nos restasse apenas um instante após o outro? O que poderia nos intrigar mais que a morte, o tempo, a dúvida? A dor do outro posta à prova como nossa dor? A figura do lobinho, nesta narrativa, torna-se emblemática, na medida em que personifica aqueles valores que se deseja por à prova e só conhecendo um lobinho se pode ter idéia da dimensão da obra.

Mas, ainda que não tenhamos conhecido nenhum escoteiro, o curta de Ian SBF consegue instigar em nós sentimentos de repulsa e compaixão. Somos colocamos numa profunda identificação com o personagem, a começar pela proximidade e instabilidade da câmera e, simultaneamente, por suas reflexões que revelam a fragilidade da vida entre o tempo e a morte. Exprime não apenas do personagem, mas de nós mesmos a idéia do que representa “ser humano”. Revelando mazelas, fragilidades e desesperanças.

A luz incômoda, opaca e sem contrastes, ressalta o isolamento e o abandono em que o personagem é lançado, na obscuridade dramática do insosso. O sentido, aparentemente negativo, que se revela com o desenrolar dos fatos e final cortante, deixa simbolicamente implícita a imanência da morte, contida em cada instante, conferindo à trama um sentido tragicômico inerente também à vida e a arte. Negar isto à ficção seria negar sua capacidade de renascer a cada ato criador, seria negar esta possibilidade ao próprio espectador.

Aqui, o humano assume dimensões limítrofes entre o apodrecimento implícito a todo ser vivente e o valor inerente a tudo que se move, respira e surpreende por seu ímpeto de ser. Perversa não é a imagem projetada sobre a tela, desvelando a ficção perturbadora de caráter ambíguo, e sim a castração do ato criador que, neste caso, ao apagar das luzes, revela quanta força pode haver em um pensamento, em uma manifestação enquanto houver vida, ainda que esmagada, exangue, contida e inerte.

Kelly Tavares

(texto produzido na oficina “O curta-metragem brasileiro: história e crítica”)

Crítica: O LOBINHO NUNCA MENTE (texto 2)


O lobinho talvez não minta. Mas o cinema, ao contrário, mente. Descaradamente. Mente na medida em que nos impõe (?) uma verdade, ou melhor: a sua (do autor) versão dos fatos a seu bel prazer. Na medida em que direciona o fluxo dos acontecimentos e nos guia, através de outras (infinitas) possibilidades, a uma única saída: a sua vontade. Mente na medida em que nos faz acreditar que o absurdo (!) é verossímil e o improvável, fato.

O curta-metragem desse carioca, que parece ter bebido em águas kafkanianas, não apenas mente. Apela por nossa boa vontade, por nosso crédito, nossa confiança. A autoridade com que o narrador/personagem/autor pretende saber o que se passa na mente de um sujeito prestes a morrer é quase assombrosa. Tem ecos de ficção científica. No futuro, maquininhas serão capazes de ler pensamentos.

Mas afinal, de quem é essa mente/narração que orienta dois olhares (personagem e câmera/autor) a nos exibir o mundo, material/estático, à sua volta? Olhares que contrapõem a imobilidade física de um corpo humano acidentado e das coisas inanimadas ao redor, ao movimento da câmera/olho.

Uma mente narradora direciona olhares que descobrem, e nos revelam um mundo. Uma super-consciência reina num corpo semi-morto enquanto tenta fazer-nos acreditar que a vida parece existir além de si mesma, assim como nas coisas inanimadas.

Essa consciência é a mesma voz que grita desesperadamente por socorro, absolvição, perdão. A voz de um moribundo que, com tempo mais que suficiente para relembrar toda a sua vida (o que diante do fato implacável de sua situação, não faz a menor diferença), oscila entre a possibilidade de sua morte e as preocupações e apegos com o mundo dos vivos.

Mas é para nós, espectadores e juízes, que ele revela seus segredos mais sórdidos. Não importa que não sejamos capazes de salvar o seu corpo físico. Importa somente que salvemos sua consciência/alma. Que a possamos perdoar, simpatizarmo-nos com ela. Afinal, confessar o crime sempre diminui a pena/indiferença.

Piscadas em Código Morse logo ao início, pedem socorro enquanto parecem marcar o tempo. Três dias, nove minutos e quarenta segundos, um segundo. A efemeridade de uma maçã que apodrece é a mesma de uma vida que se esvai. Aliás, a pergunta é inquietante: será que a maçã mordida sabe que está apodrecendo? Para o tempo, essa consciência não importa. Para o cinema, sim.

Esse curta parece afirmar que o cinema ultrapassa a vida e faz da consciência uma ponte para vencer a morte, a escuridão. O cinema continuará ecoando para além de uma vida que se extingue, na medida em que alguém seja capaz de tomar partido, absolvendo-o ou não, de sua causa/julgamento.

Meire Rose Cruz

(texto produzido na oficina “O curta-metragem brasileiro: história e crítica”)

Crítica: Paralelos


A trama do filme relata, sob a ótica de uma família, o reflexo do fim da passagem do trem que atravessava o Pantanal. O conflito entre ficar na cidade ou ir embora, a mudança da realidade do lugar e outros aspectos são abordados em Paralelos, tendo como visão central a vida de um menino de dez anos.

O curta-metragem de Alexandre Basso põe o espectador em constante aflição, visto que a fotografia do trilho é sempre sob perspectiva linear, nos dando a sensação, ao mesmo tempo de esperança, já que não se sabe o que está além do “encontro das paralelas” ao final da imagem, de inatingibilidade e de falta de perspectivas, reforçando o distanciamento da “coisa buscada” (no caso metafórico, o trem). Metafórico porque, na verdade, a busca não era simplesmente do objeto “trem”. Este carregava toda uma subjetividade para Pedro e seu pai, representando a felicidade, a prosperidade da família.

Destarte, o menino, que diz querer ficar naquela cidade, sai em busca do trem. Apesar do aparente paradoxo, a frase do pai - “existem dois caminhos: o de ida e o de volta” - fica “martelando” na cabeça do garoto, que vai justamente atrás do que possibilitaria a permanência da família sem a tristeza instalada no lugar com a ausência do trem.

“[...] o trem ia se afundando na distância, levando consigo o barulho, a fumaça e a alegria dos meninos.” Essa frase, retirada do livro O Grande Mentecapto de Fernando Sabino, aproxima as aventuras e desventuras do personagem principal Geraldo Viramundo à incessante busca de Pedro, protagonista de Paralelos. Certamente o espectador que tenha lido a obra sentiu, logo na cena inicial, a transposição para o cinema da história de Sabino.

Os movimentos da câmera, com muitos travellings, nos dão sempre a sensação de desesperada procura, da tentativa contínua de “ir ao encontro de”; além disso, encontram-se sincronizados com a fotografia, que explora bem a utilização das linhas, conduzindo o nosso olhar sobre para o foco dado pelo olhar do diretor.

A ficção perpassa por inúmeras outras questões existenciais, exemplificadas no momento de encontro de Pedro consigo mesmo – o Pedro-menino versus o Pedro-adulto. Duas vidas e dois tempos sob o mesmo trilho, um mesmo caminho. E consegue mexer violentamente com cada par de olhos que o acompanha, como no momento em que a mãe se dirige ao pai: “Cê tá esperando sabe Deus o quê, homem?”.

Laiz Ariana

(texto produzido na oficina “O curta-metragem brasileiro: história e crítica”)